22.4.11

Admiração

Saiu de casa desesperado
Almejando ganhar o pão
Andou pelo asfalto quente
De Ponta Grossa a Campo Mourão
Prendeu o choro, tentou esquecer
A saudade da família, seu bem querer
Jogando assim a sorte ao vento
Logo perdeu a esperança
Confirmou o que sentia a tempos
Nesse mundo ele tem que sofrer

Faz outro caminho a qualquer lugar
Perdeu todo o sentido de estar
Furta o alimento, pede a bebida
É humilhado, apanha e não grita
Marca na pele sua revolta
Nela se afirma e comunica:
"Continuo aqui, não vou sair
Sou mais eu do que você
Só estou tentando sobreviver"

Sobreviver cansa seu corpo magro
Ossos a mostra, cara de cansado
Deve pensar qual o sentido de continuar
Se algum dia vida nova virá
Espera encontrar n'algum canto
Acalanto de mãe, descanso ao luar
Também quer respeito, merecido
Se pelo trabalho vai ser medido
Mostra os calos adquiridos
Foi enganado isso é certo
Não perdoa aquele que o fez
Prega vingança desejada
Roda esse asfalto quente
Representa sua gente
Imponha seu lugar
Minha admiração para sempre terá

13.4.11

Incerto

Dúvida que pinga do vazio
Gota por gota, escorrendo
Preenchendo um vaso de certezas
Vai crescendo o som agudo
Cada vez mais pesado, maduro
Recipiente fraco que é, quebra em pedaços
Seu disfarce, estilhaçado
Sua beleza, repartida
Sua estrutura, abalada
Sua forma, alterada
Sua consistência, amaciada
Vaso como aquele não mais
Se faz outro parecido
Talvez mais forte mais perspicaz
Novos pingos brotam de lá
Já logo começam a formar
No seu fundo ainda seco
Lâmina rasa de amargar

10.4.11

Estar

Que bom, estar simplesmente
Algo que te prende e de repente
Deixa de ser, joga pra frente
Mente gira, brinca com a gente
Prega peças, sempre impunemente
Apareça, mostra tua cara
Seja verdadeiro, perca o medo
Se não te querer, mude lugar
Encontre algo que te faz estar

9.4.11

Trópicus

Tropecei num trópico desregulado
Provei um pouco de seu calor emanado
Sua ânsia de jorrar um pouco de alegria máxima
Que faz eu ser bom, completamente são
Ciente das idéias e dos meus sentidos
Noção plena dos meus movimentos
Outrora talvez mais contidos
Chego assim sem mais nem menos
Só pra provar um pouco desse sabor

Trópico, trópico desregulado
Aguaceiro cheio de segredos

4.4.11

Vermelha

Invoca, grita e chora
Cava o chão com as mãos
Arranca as raízes úmidas
Se encasula nesse buraco
Mostra para todos que ficará
Junto à terra, aos insetos,
Às minhocas e seus credos
Corpo vermelho de barro
Cor que se incorpora, agora
Antes, vinha lá de dentro
Saía por um tempo, curto
Logo voltava, todo bruto
Amolecia junto ao chão
Ao encontrar nele satisfação
Ancestralidade que prende
Sufoca toda a sua gente
Encruzilhada toda torta
Não bota nem destroca
Aquilo feito por a gente

3.4.11

Caminhos

Move sem fazer força
Estimula algo que não se vê
Constrói alto e rápido
Base sólida, rochosa
Se faz real do nada
Palpável como o tempo
Que chegando presente
Desfaz o projeto da mente
Trabalha então sem pretensões
Mas não se contém
Abre nova planta
Num terreno condizente
Que simpático sendo
Base crescendo novamente

1.4.11

Universotário

Cada vez mais fechada
Levanta suas muralhas
Transforma tudo em voltas
Que giram pra dar em nada
Faz ciência por ciência
Máquina de fazer dinheiro
Só mais um meio de gastar tempo
Fazendo algo que ocupa
Não pensa no sentido da vida
Muito menos sente direito
Graduação a todos, formação cega
Não fique parado, vai ser ultrapassado
Na pista do sucesso não há sossego
Pare um pouco, veja por fora
Perceba a hipocrisia presente
Nesse modelo universotário

Sina

Chego um dia mais tarde
Casa vazia e a presença de alguém que já foi
Embriaguez de sobriedade
Que me deixa nervoso
Quero um litro de aguardente
Tente me tirar do sério
Vai ver estou morto por dentro
Procuro alguma distração
Que faça o tempo passar
Já já me jogo pra fora
Passadas largas numa calçada fria
Será que encontrarei ela hoje?
Meu vício maldito, minha sina
Minha vala rasa, cão sem guarda

Marasmo

Levanto da cama num dia chato
Me arrasto pro banho de um dia igual
Vejo o jornal, tristes cenas vermelhas
Engulo o café preto e a manteiga amarela
Caio no asfalto mole e grudento
Suo e contemplo o movimento lento
Fumaça e barulho, gente selvagem
Cara já fechada nas primeiras horas
Na cabeça as tarefas chatas, rotina
Quero que o tempo passe
Quero o final do dia
Quero desligar meu cérebro
Quero uma boa terapia global