1.6.15

Entrave

Era de um jeito
Me leva cum beijo
Lembra do amor
Torpor de desejo
Na roda da verdade
Frente à realidade
Nudez da cara trava
Superficialidade maligna
Passado distante
Presente confuso
Sensação de dormência
Estado de espera

Caminhar


A coragem que me falta pra viver
Se traduz em tempo que demoro pra chegar
Os caminhos que aparecem pra seguir
Somem na falta de um caminhar
Mesmo assim, a ilusão de estar caminhando
Custa tanto a passar...

21.4.15

Quando

De vez em quando te vejo
Te vejo de vez em quando
De vez em quando te esqueço
Te esqueço de vez em quando
De vez em quando te sinto
Te sinto de vez em quando
De vez em quando te busco
Te busco de vez em quando
De vez em quando te desejo
Te desejo de vez em quando
De vez em quando é tanto
Tanto é de vez em quando
Quando em vez é sempre
Sempre é vez em quando
Quantos quandos
Quantos quandos

18.8.13

Parte do quadro

Parece ser a peça de um quebra cabeça,
Vai se mostrando aos poucos, a imagem
Borrada a princípio. Dolorida de timidez.

Nervosismo meio compulsivo, se repetindo
Não chega à intimidade, não alcança.
Desconforto de ser, vive uma mentira

Dualidade falsa, mas tem um lado certo?
Condição de evolução, picotada
Trechos de uma mente perturbada

24.8.12

Liberta

E se liberta de um medo de amar
Que venda os olhos
Que tapa os ouvidos
Que enfraquece o pulso
Que acalma o ar
Que silencia o pranto
Que devora a vontade
Que abate as idéias
Que arrefece a pegada
Que desmiola os miolos
Que prende a boca
Que suga as palavras
Que falta na hora
Que atrasa o passo
Que leva o mesmo
Que procura o abrigo
Que mente a tristeza
Que desencoraja a felicidade
Que intimida o sorriso
Que seca a lágrima
Que tira o bonito
Que arranca o tesão
Que finge a dor
Que embaralha o real
Que arrasta o pensamento
Que escurece a frente
Que bota a preguiça
Que desbota o carisma
Que cansa a amizade
Que provoca a angústia
Que deixa a solidão
Que permite o errado
Que impõem a dúvida
Que prende o movimento
Que segura o impulso
E se liberta de um medo de amar...

3.8.12

Conclusões 1

Todos se assemelham em seus consolos
Todos se apaziguam no romper da exclamação
Que sem delongas trata de estapear
Na fronte de um qualquer que qualquer coisa quer virar:

"Virar é escapar, sumir em outro semelhante
Ou então sozinho perambular
Ou então ainda, muitos consolos souber dar"

24.5.12

De qualquer jeito

Ficou, assim sem você junto
Um pulso profundo de saudade
Que forte ou fraca, que ri ou chora
É sempre a mesma trajetória
Vem de lembrança seguida de esperança
De que é você, moça linda, quem vai ser
Aquela a quem vou me entregar
Sem medo de seguir e ser seguido

Curto por demais

Sim, foi um dia que bastou 
Pra mudar o que antes era bom
Plantou uma interrogação em meu peito
Que parece estar calejando por demais
Nesses tempos tão frugais que não parecem ter fim
Não parecem ter mais fim
Esses tempos tão frugais 
Onde caleja meu coração
E muda pra pior
Em um dia curto por demais

Noturno

Lampejo arredio no meio da noite
Que corta o silêncio sem barulho algum
Tensão da surpresa daquilo que surge
Tira o sono e coloca um fio de arrepio
Sinistra ideia chega à mente
Tão logo se fez tão rápida se faz
Suando frio mas sentindo calor
Ao ver o destino exposto à frente
Não há mais volta após tal ocorrido
Não há disfarce pro que há de vir
A rota de agora em seguinte
Faz uma curva sem ter p'ronde ir
Mas tudo segue, tudo segue
No quarto que volta a ser escuro
A madrugada avança e volta a esperança
De talvez poder esquecer

5.10.11

De novo

Circulares, audaciosas piruetas performáticas
Flutuam competindo por espaço no céu anil
Leve, vento empurra torta e pra cima
Se sai de prumo é pra não voltar pois
Boa notícia pr'alegria geral de quem só é
Só ser, chorar, rir, banhar e se despir da fumaça nebulosa e falsa
Secou a garganta a percepção do não retorno
Me doeu a garganta o desespero contido
Estufando demais tudo, será?
Derretendo e misturando junto
Se quero sumiço, é pra virar terra
Um bolsão que contenha tudo exalado
Lembranças terão pelo olfato denúncia
Sem meias palavras

Chama

A chama que sai de mim
Não é bem aquela que desejavas
Num sopro crescente, deitou pequena
Serena e fraca, repousou sobre ti
Que num movimento de acalanto materno
A manteve acesa ainda por mais um tempo
Mas foi mesmo só por compaixão
E isso logo se percebeu, no momento
Em que, lenta, esmoreceu silenciosa
Perdeu brilho, cor e calor por não se alastrar
E sobrou só o pavio inerte e sem vida

19.9.11

Giro

Venha comigo menina doce
Vamos dar cor aos olhos
Uma passeada pelas nuvens
Gordas, brancas e fofas
Voltamos logo que desaguarem
E aí corremos passadas largas
Pelas calçadas da nossa cidade
O dia ainda custa a acabar
Um sambinha no fim de tarde
Naquela praça gelada e cheia
E aí a noite começa a chegar
E ainda temos bastante alegria
De estar onde estamos
Gozamos de liberdade conquistada
Nos perdemos nas possibilidades
E logo sentimos o vazio do simples estar
Mas deixa passar, venha se embriagar

Comunidade humana

Viver é muito mais do que ser feliz, estar bem é estar sentindo - sentir é viver, viver é sentir - sofrer e amar dialogam e a linha tênue que os separam é simples invenção. O amar está presente em tudo, o medo de não ser amado, o medo da rejeição, a sociedade excludente - exclui idéias, cores, atitudes, pessoas, crenças, amores, invenções. O coletivo e o sentimento de pertencimento é necessário à condição humana - o humano se completa na comunidade!

11.8.11

Espelho

Está além de mim
Está fora de controle
O que não gosto de você
É o que mais odeio em mim
Não quero ver isso impresso
Revela para o mundo
Meus segredos, preconceitos
Aceitar é compreender
O diverso é o lindo
O complexo é a vida

4.8.11

Revelação

É um querer ser cego por medo
De que por ser verdadeiro
Revele não só o bonito que há
Mas há coisa mais bonita que não se importar?

15.6.11

Cores

A cor que dá aos olhos
É a de dia de céu nublado
A cor que pinta o quadro
É toda tirada de ti
Essa cor que borra calçada
É aquela já bem desbotada
Te vejo tentando colorir
Com uma tinta já ultrapassada
Essas cores insistem em refletir
E ainda que fiquem opacas, foscas e chatas
Te tingem de maneira única
Pois a cor que tu vê
É a luz que tu emite

2.6.11

Bossa

Me perco no que sou
Essa bossa encravada
Me prende a algo
Com o qual não me identifico
Tempo perdido, luz de idéia
Muda algo, traz o novo
Estou farto dessa mesmice
Dessa rotina enquadrada
Da crise premeditada
De uma dor imposta
Dessa amargura desejada
Da lágrima desperdiçada
De uma noite solitária
Bossa velha, larga de mim
Já não te quero como antes
Deixa impresso no que sou
Essa lindeza de tristeza
Mas deixa um espaço
Pr'eu poder dizer que já não me tens

29.5.11

Busca

Busca surda, muda a busca
Busca a muda, surda a busca
Busca lá, busca cá
Muda essa busca surda
Busca outra muda surda
Junta uma busca justa
Justa busca dos tempos
Custa mudar a busca
Essa busca surda e muda

12.5.11

Programa

Liga
Religa
Transliga
Agiliza
Liga
Pré liga
Depois liga
Ligará
Ágil
Não liga
Te liga
Pós liga
Liga
Liga mente
Ligada
Ligadamente
Ligou
Agilidade
Liga
Dá liga
Cinta liga
Liga tu
Liga liga
Agiliza
Ligados
Biliga
Triliga
Ligadinha
Ligadura
Liga depois
Liga
Desliga

22.4.11

Admiração

Saiu de casa desesperado
Almejando ganhar o pão
Andou pelo asfalto quente
De Ponta Grossa a Campo Mourão
Prendeu o choro, tentou esquecer
A saudade da família, seu bem querer
Jogando assim a sorte ao vento
Logo perdeu a esperança
Confirmou o que sentia a tempos
Nesse mundo ele tem que sofrer

Faz outro caminho a qualquer lugar
Perdeu todo o sentido de estar
Furta o alimento, pede a bebida
É humilhado, apanha e não grita
Marca na pele sua revolta
Nela se afirma e comunica:
"Continuo aqui, não vou sair
Sou mais eu do que você
Só estou tentando sobreviver"

Sobreviver cansa seu corpo magro
Ossos a mostra, cara de cansado
Deve pensar qual o sentido de continuar
Se algum dia vida nova virá
Espera encontrar n'algum canto
Acalanto de mãe, descanso ao luar
Também quer respeito, merecido
Se pelo trabalho vai ser medido
Mostra os calos adquiridos
Foi enganado isso é certo
Não perdoa aquele que o fez
Prega vingança desejada
Roda esse asfalto quente
Representa sua gente
Imponha seu lugar
Minha admiração para sempre terá

13.4.11

Incerto

Dúvida que pinga do vazio
Gota por gota, escorrendo
Preenchendo um vaso de certezas
Vai crescendo o som agudo
Cada vez mais pesado, maduro
Recipiente fraco que é, quebra em pedaços
Seu disfarce, estilhaçado
Sua beleza, repartida
Sua estrutura, abalada
Sua forma, alterada
Sua consistência, amaciada
Vaso como aquele não mais
Se faz outro parecido
Talvez mais forte mais perspicaz
Novos pingos brotam de lá
Já logo começam a formar
No seu fundo ainda seco
Lâmina rasa de amargar

10.4.11

Estar

Que bom, estar simplesmente
Algo que te prende e de repente
Deixa de ser, joga pra frente
Mente gira, brinca com a gente
Prega peças, sempre impunemente
Apareça, mostra tua cara
Seja verdadeiro, perca o medo
Se não te querer, mude lugar
Encontre algo que te faz estar

9.4.11

Trópicus

Tropecei num trópico desregulado
Provei um pouco de seu calor emanado
Sua ânsia de jorrar um pouco de alegria máxima
Que faz eu ser bom, completamente são
Ciente das idéias e dos meus sentidos
Noção plena dos meus movimentos
Outrora talvez mais contidos
Chego assim sem mais nem menos
Só pra provar um pouco desse sabor

Trópico, trópico desregulado
Aguaceiro cheio de segredos

4.4.11

Vermelha

Invoca, grita e chora
Cava o chão com as mãos
Arranca as raízes úmidas
Se encasula nesse buraco
Mostra para todos que ficará
Junto à terra, aos insetos,
Às minhocas e seus credos
Corpo vermelho de barro
Cor que se incorpora, agora
Antes, vinha lá de dentro
Saía por um tempo, curto
Logo voltava, todo bruto
Amolecia junto ao chão
Ao encontrar nele satisfação
Ancestralidade que prende
Sufoca toda a sua gente
Encruzilhada toda torta
Não bota nem destroca
Aquilo feito por a gente

3.4.11

Caminhos

Move sem fazer força
Estimula algo que não se vê
Constrói alto e rápido
Base sólida, rochosa
Se faz real do nada
Palpável como o tempo
Que chegando presente
Desfaz o projeto da mente
Trabalha então sem pretensões
Mas não se contém
Abre nova planta
Num terreno condizente
Que simpático sendo
Base crescendo novamente

1.4.11

Universotário

Cada vez mais fechada
Levanta suas muralhas
Transforma tudo em voltas
Que giram pra dar em nada
Faz ciência por ciência
Máquina de fazer dinheiro
Só mais um meio de gastar tempo
Fazendo algo que ocupa
Não pensa no sentido da vida
Muito menos sente direito
Graduação a todos, formação cega
Não fique parado, vai ser ultrapassado
Na pista do sucesso não há sossego
Pare um pouco, veja por fora
Perceba a hipocrisia presente
Nesse modelo universotário

Sina

Chego um dia mais tarde
Casa vazia e a presença de alguém que já foi
Embriaguez de sobriedade
Que me deixa nervoso
Quero um litro de aguardente
Tente me tirar do sério
Vai ver estou morto por dentro
Procuro alguma distração
Que faça o tempo passar
Já já me jogo pra fora
Passadas largas numa calçada fria
Será que encontrarei ela hoje?
Meu vício maldito, minha sina
Minha vala rasa, cão sem guarda

Marasmo

Levanto da cama num dia chato
Me arrasto pro banho de um dia igual
Vejo o jornal, tristes cenas vermelhas
Engulo o café preto e a manteiga amarela
Caio no asfalto mole e grudento
Suo e contemplo o movimento lento
Fumaça e barulho, gente selvagem
Cara já fechada nas primeiras horas
Na cabeça as tarefas chatas, rotina
Quero que o tempo passe
Quero o final do dia
Quero desligar meu cérebro
Quero uma boa terapia global

31.3.11

Manutenção de vidas

Manutenção de vidas
A qualquer custo, a todo custo
Não deixe morrer, viva eternamente
Queremos tudo pra sempre
Queremos tudo em dobro
Mais, mais e mais
Mais dinheiro, mais saúde
Mais educação, mais lazer
Não importa o custo
Quero conforto, quero tudo
Casa grande carro de luxo
Barriga cheia, cabeça vazia
Cérebro estufado, coração murchado
Quero o doce antes do salgado
Quero o salário antes do trabalho
Quero o remédio antes do tédio
Quero felicidade antes do amor
Eu dou dinheiro, pago uma quantia
Me dê a garantia
De que terei tudo em demasia
O mundo é meu, o resto é seu

26.3.11

Tempo

E vai passando, dando
Andando, andando
Clareando, escurecendo
Vai chegando manso
Pedindo um canto
Se aprochegando, quando
De súbito, encantando
Toando tanto, puxando
Chorando e angustiando
Deixando crescer, murchando
Não escolhendo nem vendo
Sentindo, rindo, mentindo
Chega de vez e faz peso
Mas só pra flutuar
E o tempo continuar trabalhando

24.3.11

Qualquer coisa

É isto que eu quero fazer, é isto que eu vou fazer. Vou encarar o que vier pela frente. Sem medo. Ésta será minha bandeira. É nisto em que vou me apoiar. Será minha razão de viver. Será todas as minhas desculpas, para todas as minhas falhas. Será meu passe branco para todas as burradas. Será o motivo para não se ter vergonha de nada. Ela estará sempre comigo. Deixará as coisas fluírem de maneira mais fácil. Será meu assunto, minha droga, meu vício. Vou te adotar como causa nobre. Vou te chamar de minha. Seremos uma coisa só. A minha vontade rondará a minha possibilidade de te ter cada vez mais para mim. Serei teu maior conhecedor. Descobrirei todos os seus segredos. Todas as suas curvas, seus segredos, seus erros, cacoetes, prazeres, dúvidas e medos. Me confessarei para você, serei sincero de maneira impossível, se não fosse você.

11.2.11

Nova fórmula

No limiar do digno e do não-digno
Se encontrou meio perdido
Por não saber ao certo, rindo
Encabulou-se tímido, tamanho poder atingido

Poder este meio vazio, transparente
Que não mede nem compete
Tampouco mexe onde deveria
Transforma pouco e aparece em demasia

Arquitetado pelos fascínoras iludidos
Maquinalmente moldado à revelia
Cresceu mais até do que queria
E solto assim, só faz estripulias

Qual remédio formulado solucionaria
Impasse este iniciado por teimosia
Quão fundo ele buscaria
Sem cansar nem pedir a beira

5.2.11

(A)balada

Sólida, alta, muralha maldita
Assombra minha vida rala
Separa de mim qual vala
Impõem uma comunicação falha

Salina deserta, triste e branca
Que me seca a garganta
Me murcha o ímpeto apaixonado
Racha aos poucos o certo

Promessas impensadas e nervosas
Conversas tortas, subliminares
Tento adivinhar parcialmente
Chego a criar algo bem diferente

Na confusão do fracasso
Volto pra casa conhecida
Deito na cama amassada
Crio uma desculpa sensata

Chega, chega, chega...

3.2.11

Descoberta

Serei cavouqueiro de ti
Minhas mãos ásperas e grossas
Te abrirão ao meio com um escopro
Alvoroçado, vou me esbaldar na surpresa

Na alegria de perceber quão bela és
Serei também belo e iluminado
Me guiarás pelos caminhos das tuas entranhas
Que há muito não revelavas a outrém

Aos bocados exagerados
Entre risos e lágrimas
Lábios se encontram suados
Ardentes de paixão liberada

Caem as fronteiras do comportamento
Chegamos num campo neutro
Descobrimos algo novo em nós
Que faz do encontro mundo novo

Revelação

Estes falsos versos vazios
Confissões mentirosas e rasas
Não chegam onde deveriam
Não revelam o que queriam

Te encontro no local marcado
Mas tu não me esperava
Acreditava estar com outra pessoa
Que seria tua salvadora

Estes falsos versos de criança
Não me enganam mais
Passei a ver que no fundo
São uma máscara de alguém que não sou

1.2.11

Chuva

Sinto cheiro de chão quente

Água que escorre e banha

A terra sedenta e seca,

Um tronco musguento

Conduz o alívio à raiz


Muda o clima, atenua o calor

Brisa molhada de muito sabor

Me traga a calma necessária

E a paciência perdida,

Para a contemplação da vida


Faz rebrotar a esperança,

Nos seres que andam tristes,

De um tempo vindouro mais sadio

De mais alegria e entendimento,

Que evolua, nasça, surja, crie e molde

11.1.11

Seu Antônio

Um abrigo barulhento num bar mal educado
Uma recusa polida e um convite aceitado
De louco não tem nada, avançado pra época é
Pão comprado, café mal passado, papo engatilhado
Artista da madeira marcheteiro de primeira
Mesa, revólver brinquedo, cumbuca e colher
Agilidoso com suas ferramentas o homem é
Se não tem lugar fixo, dá um jeito nisso
Marcenaria móvel sobre duas rodas
Ladainhense de boa prosa
Impressiona pela bondade jocosa

8.1.11

Inspiração

Estranha força que vem de fora
Embola e gira, fecha e corta
Ancorada em terra, até quando?
Capaz de frutar bons sentidos
Pode gerar até alguns risos
Nutre as cores, dá o brilho
Tira o cinza, bota o tinto
Cava silhuetas performáticas
Formas abstratas e moldadas
Cimenta a forma e não deixa secar
Entalha sua vida, aproveita o siso
Logo passa por cima e volta por baixo
Recomeça em outro material
Acha sua fonte, abra sua fronte
Cubra tudo com ternura
Nunca se sabe quanto perdura

Identidade

Passos largos, apressados
Tenho hora tenho provas
Um gosto amargo de fumaça
Me seca a garganta inflamada
Tossida seca, cortante
Me quebra o ritmo
Tira de mim esse vício
De ser sempre tão crítico
Faça cair essa máscara usada
Me dê a sobriedade necessária

Vibrações

Diferentes formas se mesclam
Num rodopio enviesado se lançam
Sozinhas perdem seu vigor
Sozinhas perdem sua graça
Um ouvido acostumado com elas
As recebe sem muito furor
Para outro que seja o novo
Motivo de exaltação sem igual
Seja onde for, em qualquer canto
Ouvir essas ondas vibrando
Quebrando o silêncio mordaz
Faz um acalanto um embalo caloroso
Dão uma paz que se confunde com paixão

Pra quem

Som

Num frenesi dialético
Tudo passa dos limites
Aborrece a Deus e o mundo
Essa exatidão premeditada
Toda enovelada, toda presa
A brecha se perde e se fecha
As cornetas gritam, suas notas
Caem em dissonância patética
A leitura das pautas amareladas
Cansam a vista de um olho perturbado
Quem dita o belo quer ver o sangue
Se banha num mar de contradições
Guia a rédeas curtas o galope possante
De uma manada enraivecida
Decrescida pelas normas artificiais

Outro mundo

Em outro mundo talvez seja possível
Viver uma vida com um pouco mais de sentido
O pouco será para todos
O louco será o infeliz
O pouco será a descomplicação
O louco será o burocrata
Lá a terra é fértil e gera energia
O dia passa rápido tamanha a alegria
O pouco será o suficiente
O louco será a preguiça
O pouco será o novo
O louco será o desconfiado
Nada faltará e os sonhos serão tranquilos
A cobiça se extinguiu e o amor prevalecerá
O pouco será a tecnologia
O louco será a disciplina
O pouco será um banquete
O louco será o desperdício
Nada se jogará fora sem antes pelo ciclo passar
O fora passa a ser dentro e dentro ficará
O pouco será o melhor
O louco será o demais
O pouco será a felicidade
O louco será a doença

Vermelho

Eu perco o rumo, perco o chão

Perco tudo em vão por não saber quem você é

Mostre pra mim quem você é, quero muito saber

Não posso mais esperar

Quero que minha vida volte a ter sentido

Preciso de uma direção

Me parece que não importa muito pra onde

Só saberei de onde porque o passado conheço bem

O passado é confortante. Quero dormir. Quero sonhar.


Voltei a sonhar esses dias, fazia tanto tempo que isso não me acontecia

Por isso está tão difícil acordar

O que me motiva a escrever é parecer mais com você

Menina que me ronda desde que aqui cheguei

Se encontrando nas esquinas, nunca mais do que isso.

Por que então essa esperança tola?

Bobagens de quem ainda não aprendeu

Você precisa de muito mais arte em sua vida do que posso oferecer

Preciso desistir, mas o que me entristece é que isso não fará diferença pra você

Mas eu vou, vou dormir e vou sonhar e vou acordar pra sonhar de novo e esquecer tudo.

Tentando entender

Se um age se preocupando no julgamento de outrem, só tomará atitudes que não vão contra o que acha poder gerar um julgamento negativo. Mas o que aquele pensa ser um possível julgamento só poderá ser o próprio juízo, pois na cabeça de um está somente aquilo que lhe pertence.

O novo

Quero um broto de alegria
Um beijo de menina
Água no rosto de cachoeira grande
Não me intimido pelo concreto
Tudo vai cair com o balançar do novo

Há de surgir algo que siga o ciclo
A utopia se tornará realidade
Ou então seremos eternamente quadrados

7.1.11

Poente

Que venha a noite, fresca e calma
Que este mar colha as minhas lágrimas
Que um novo raio de sol
Seja motivo para um maio primaveril

Que seja um divisor de águas
Que fique bem claro qual lado é qual
Que estique essa luz até quem precisa
Para que as decisões não recaiam em maldade


Gelo

Derretendo numa cama fervente de solidão
Quem está longe de repente surge ao lado
Caio como uma bola que bate num quadro
Sem saber o que fazer então
Continuo na mesma inquietude quieta

Quieta porque vejo o movimento
Mas ele não mexe comigo
Um abrigo pro meu sentimento é o que quero
Abrigo de cristal, gelado
Que esfrie meu ímpeto de sofrer

Sóbrio

Sóbrio, encaro a minha sem gracisse
Se o povo visse, não acreditava
Vou sair sem rumo, vou preencher
Me estufar até quase estourar
Vou crescer vivendo, sofrendo
Vendo com meus olhos o que há para olhar

Mas não quero perder minha meninisse
Meus dias de glória são os que passo rindo
Indo de esquina em esquina, de ilha em ilha
De sono em sono, de lingua em lingua
De mágoa em mágoa, de alegria em alegria
Sem nem perceber, vou cair num novo dia

Molear

Me diga você, pra variar

O que acha que aconteceu

Se de uma hora para a outra tudo amoleceu

E essa dor me amolando me deixa chato

Ao ponto de eu só querer dormir

Para não ter que sentir essas pontadas agudas

Mais parecem agulhas, molestando meu coração

Me diga você, pra variar

Se acha que devemos continuar

Nesse caminho tortuoso e perigoso

Faz meus ossos tremerem no verão

Como posso me sentir tão só

Mesmo estando aqui onde estou

Assim não dá meu amor, assim não dá

Desse jeito eu peço água com açúcar

Que é pro meu afeto se acalmar

Me diga você, ao menos uma vez

Que devemos parar de tentar

Pra eu ver se consigo

Ser mais forte desta vez

E tudo se alterar

Mas eu te digo também

Que ainda sinto você dentro de mim

E as vezes quero ir pra longe

Sentir o cheiro do orvalho da manhã

Encher os pulmões de esperanças

E a boca de alegria