11.1.11

Seu Antônio

Um abrigo barulhento num bar mal educado
Uma recusa polida e um convite aceitado
De louco não tem nada, avançado pra época é
Pão comprado, café mal passado, papo engatilhado
Artista da madeira marcheteiro de primeira
Mesa, revólver brinquedo, cumbuca e colher
Agilidoso com suas ferramentas o homem é
Se não tem lugar fixo, dá um jeito nisso
Marcenaria móvel sobre duas rodas
Ladainhense de boa prosa
Impressiona pela bondade jocosa

8.1.11

Inspiração

Estranha força que vem de fora
Embola e gira, fecha e corta
Ancorada em terra, até quando?
Capaz de frutar bons sentidos
Pode gerar até alguns risos
Nutre as cores, dá o brilho
Tira o cinza, bota o tinto
Cava silhuetas performáticas
Formas abstratas e moldadas
Cimenta a forma e não deixa secar
Entalha sua vida, aproveita o siso
Logo passa por cima e volta por baixo
Recomeça em outro material
Acha sua fonte, abra sua fronte
Cubra tudo com ternura
Nunca se sabe quanto perdura

Identidade

Passos largos, apressados
Tenho hora tenho provas
Um gosto amargo de fumaça
Me seca a garganta inflamada
Tossida seca, cortante
Me quebra o ritmo
Tira de mim esse vício
De ser sempre tão crítico
Faça cair essa máscara usada
Me dê a sobriedade necessária

Vibrações

Diferentes formas se mesclam
Num rodopio enviesado se lançam
Sozinhas perdem seu vigor
Sozinhas perdem sua graça
Um ouvido acostumado com elas
As recebe sem muito furor
Para outro que seja o novo
Motivo de exaltação sem igual
Seja onde for, em qualquer canto
Ouvir essas ondas vibrando
Quebrando o silêncio mordaz
Faz um acalanto um embalo caloroso
Dão uma paz que se confunde com paixão

Pra quem

Som

Num frenesi dialético
Tudo passa dos limites
Aborrece a Deus e o mundo
Essa exatidão premeditada
Toda enovelada, toda presa
A brecha se perde e se fecha
As cornetas gritam, suas notas
Caem em dissonância patética
A leitura das pautas amareladas
Cansam a vista de um olho perturbado
Quem dita o belo quer ver o sangue
Se banha num mar de contradições
Guia a rédeas curtas o galope possante
De uma manada enraivecida
Decrescida pelas normas artificiais

Outro mundo

Em outro mundo talvez seja possível
Viver uma vida com um pouco mais de sentido
O pouco será para todos
O louco será o infeliz
O pouco será a descomplicação
O louco será o burocrata
Lá a terra é fértil e gera energia
O dia passa rápido tamanha a alegria
O pouco será o suficiente
O louco será a preguiça
O pouco será o novo
O louco será o desconfiado
Nada faltará e os sonhos serão tranquilos
A cobiça se extinguiu e o amor prevalecerá
O pouco será a tecnologia
O louco será a disciplina
O pouco será um banquete
O louco será o desperdício
Nada se jogará fora sem antes pelo ciclo passar
O fora passa a ser dentro e dentro ficará
O pouco será o melhor
O louco será o demais
O pouco será a felicidade
O louco será a doença

Vermelho

Eu perco o rumo, perco o chão

Perco tudo em vão por não saber quem você é

Mostre pra mim quem você é, quero muito saber

Não posso mais esperar

Quero que minha vida volte a ter sentido

Preciso de uma direção

Me parece que não importa muito pra onde

Só saberei de onde porque o passado conheço bem

O passado é confortante. Quero dormir. Quero sonhar.


Voltei a sonhar esses dias, fazia tanto tempo que isso não me acontecia

Por isso está tão difícil acordar

O que me motiva a escrever é parecer mais com você

Menina que me ronda desde que aqui cheguei

Se encontrando nas esquinas, nunca mais do que isso.

Por que então essa esperança tola?

Bobagens de quem ainda não aprendeu

Você precisa de muito mais arte em sua vida do que posso oferecer

Preciso desistir, mas o que me entristece é que isso não fará diferença pra você

Mas eu vou, vou dormir e vou sonhar e vou acordar pra sonhar de novo e esquecer tudo.

Tentando entender

Se um age se preocupando no julgamento de outrem, só tomará atitudes que não vão contra o que acha poder gerar um julgamento negativo. Mas o que aquele pensa ser um possível julgamento só poderá ser o próprio juízo, pois na cabeça de um está somente aquilo que lhe pertence.

O novo

Quero um broto de alegria
Um beijo de menina
Água no rosto de cachoeira grande
Não me intimido pelo concreto
Tudo vai cair com o balançar do novo

Há de surgir algo que siga o ciclo
A utopia se tornará realidade
Ou então seremos eternamente quadrados

7.1.11

Poente

Que venha a noite, fresca e calma
Que este mar colha as minhas lágrimas
Que um novo raio de sol
Seja motivo para um maio primaveril

Que seja um divisor de águas
Que fique bem claro qual lado é qual
Que estique essa luz até quem precisa
Para que as decisões não recaiam em maldade


Gelo

Derretendo numa cama fervente de solidão
Quem está longe de repente surge ao lado
Caio como uma bola que bate num quadro
Sem saber o que fazer então
Continuo na mesma inquietude quieta

Quieta porque vejo o movimento
Mas ele não mexe comigo
Um abrigo pro meu sentimento é o que quero
Abrigo de cristal, gelado
Que esfrie meu ímpeto de sofrer

Sóbrio

Sóbrio, encaro a minha sem gracisse
Se o povo visse, não acreditava
Vou sair sem rumo, vou preencher
Me estufar até quase estourar
Vou crescer vivendo, sofrendo
Vendo com meus olhos o que há para olhar

Mas não quero perder minha meninisse
Meus dias de glória são os que passo rindo
Indo de esquina em esquina, de ilha em ilha
De sono em sono, de lingua em lingua
De mágoa em mágoa, de alegria em alegria
Sem nem perceber, vou cair num novo dia

Molear

Me diga você, pra variar

O que acha que aconteceu

Se de uma hora para a outra tudo amoleceu

E essa dor me amolando me deixa chato

Ao ponto de eu só querer dormir

Para não ter que sentir essas pontadas agudas

Mais parecem agulhas, molestando meu coração

Me diga você, pra variar

Se acha que devemos continuar

Nesse caminho tortuoso e perigoso

Faz meus ossos tremerem no verão

Como posso me sentir tão só

Mesmo estando aqui onde estou

Assim não dá meu amor, assim não dá

Desse jeito eu peço água com açúcar

Que é pro meu afeto se acalmar

Me diga você, ao menos uma vez

Que devemos parar de tentar

Pra eu ver se consigo

Ser mais forte desta vez

E tudo se alterar

Mas eu te digo também

Que ainda sinto você dentro de mim

E as vezes quero ir pra longe

Sentir o cheiro do orvalho da manhã

Encher os pulmões de esperanças

E a boca de alegria

Refúgio incerto

Cadê aquela luz que estava aqui

Ela se apagou e me deixou sem rumo

A clareza de meus pensamentos

Que outrora faziam tanto sentido

Agora já não sei o que digo

Mas em frente vou seguindo

Só porque me dizem que é preciso


Ah, mas o que foi que aconteceu comigo

Já não quero mais o abrigo

Daquilo que já quis aprender


A parte que deixa de ser de mim

È muito grande por isso fique

Não vá embora

Fique para o café

Como de costume


Ah, mas será que vou conseguir

Ou será isso só sede de mudança

Achando que o que vem pode ser melhor

Amarguras

Um dia ou outro, uma manhã qualquer

Ao sair da cama saberei o destino que me aguarda

O sol perfura meus olhos e o chão me puxa pra baixo

A caminhada é interminável e meu corpo cambaleia

A dúvida me corrói por dentro, me mata aos poucos


Sem saber o caminho a tomar

O labirinto me consome

Minha alma se esvai

A cada dia sem respostas


Qual a atitude certa a tomar

Quando não se sabe bem qual o problema

Que efeito terá essa escolha a qual me agrada

Pensar no futuro não me dá esperanças

E o passado não posso lembrar

O presente é o que me resta e isso dói